Eleição CREA-ES: Candidato condenado pela justiça quer controlar milionária Mútua
No próximo dia 3 de julho os engenheiros do Espírito Santo escolherão sua diretoria para os próximos três anos. Mas a eleição do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (CREA-ES) tem sido marcada por pedidos de impugnação de candidaturas e denúncias contra os candidatos que fazem oposição a atual diretoria. Nos bastidores dessa disputa, está uma figura que responde por processo de corrupção no Detran-ES e foi condenado a prisão por envolvimento em um esquema de furto de energia elétrica. Um personagem que costuma agir sempre da mesma forma, com a intensão de tirar candidatos opositores a atual direção do pleito.
Antes de chegarmos na disputa deste ano, vamos voltar a eleição de 2023. Na ocasião, o engenheiro Kennedy Ferreira Lino era inspetor do CREA-ES, cargo ligado à diretoria do então presidente Jorge Silva (que assumiu seu primeiro mandato em 2021). Lino saiu do cargo e se lançou candidato a presidência da entidade. Mas, seu principal feito naquela campanha foi pedir a impugnação da candidatura de Marcos Aurélio de Almeida Brunetti, principal adversário do então presidente Jorge Silva, que disputava a reeleição. Lino acusou Brunetti de não ter apresentado algumas certidões negativas e, principalmente, de atacar a imagem do CREA-ES nas redes sociais. Brunetti conseguiu recorrer e participou da eleição, mas o barulho junto à classe feito por Lino ajudou seu antigo chefe a ser reeleito. Enquanto isso, Lino teve um desempenho pífio nas urnas, alcançando apenas 83 votos.
Agora, na eleição deste ano, Kennedy Lino é candidato a diretor-administrativo da poderosa e milionária Mútua-ES, a caixa de assistência aos profissionais do sistema CONFEA/CREA/MÚTUA, que só no ano passado destinou mais de R$ 29 milhões em benefícios reembolsáveis (como linhas de crédito para veículos, equipamentos e reformas) aos seus associados. E, às vésperas de uma nova eleição, Kennedy Lino adota o mesmo modus operandi do último pleito: pedir a impugnação de candidatos de oposição a atual diretoria.
Em um recente vídeo publicado em suas redes sociais, Kennedy Lino comemorou a impugnação dos candidatos Jorge Costa, Sérgio Magalhães e Elder Carnielli. O único que escapou dos pedidos de impugnação feitos por Lino foi o candidato da situação Zé Maria Cola, que tem o apoio do seu ex-chefe, Jorge Silva. Depois de dois mandatos na presidência do CREA-ES, Jorge Silva disputa neste ano a diretoria geral da Mútua-ES.
Ao olhar rapidamente os comentários na postagem de Lino em que ele acusou os outros candidatos de uma série de irregularidades, é possível ver que os perfis que elogiam o vídeo são de apoiadores da dupla Zé Maria Cola e Jorge Silva.
Mas, apesar dos ataques de Kennedy Lino, os candidatos Jorge Costa, Sérgio Magalhães e Elder Carnielli recorreram do pedido de impugnação e estão aptos para disputar a eleição do próximo dia 3.
E a ironia da história é que o engenheiro que dirige acusações contra adversários, também está envolvido em um esquema de compra de carteiras de motorista. Em uma investigação do Ministério Público Estadual de 2023 (ano em que Lino disputou a presidência do CREA-ES) que apura a atuação de funcionários do Detran na alteração do resultado de provas de trânsito, fazendo com que candidatos reprovados na prova conseguissem ter o resultado alterado mediante pagamento de propina, Kennedy Lino aparece como intermediário entre os servidores do Detran e uma candidata que comprou sua aprovação.
“Igualmente relevante é o testemunho de A.M.O (vamos preservar o nome da pessoa porque ela não faz parte do escopo desta reportagem), que afirmou ter efetuado um pagamento no valor de R$ 3.000,00 (três mil reais) para garantir a aprovação. Dessa quantia, R$ 1.000,00 (mil reais) foram pagos por meio de cartão de crédito, enquanto R$ 2.000,00 (dois mil reais) foram transferidos via pix, destinados a um amigo chamado Kennedy Ferreira Lino. Segundo o relato de A., Kennedy possuía conhecimento de uma pessoa ligada ao DETRAN/ES capaz de resolver a questão”, destacam os promotores em um trecho de seu pedido de quebra de sigilo bancário dos envolvidos.
“No mesmo sentido, afirmou A.J.A.T (outra pessoa beneficiada pelo esquema), ocasião na qual relata que não foi aprovada na prova prática de trânsito, tendo transferido a quantia de R$ 2.000,00 (dois mil reais) a A.M.O.S (também ouvida nesta Promotoria), para que pagasse ao Kennedy, que tinha uma pessoa comissionada dentro do DETRAN/ES que fazia as alterações”, prosseguiu o pedido do MPES.
Segundo os promotores, Kennedy Lino agia como um intermediário do esquema “cooptando candidatos reprovados e solicitando dos mesmos a indevida vantagem financeira, para que pudessem ser considerados aprovados nas provas que haviam sido reprovados, vindo a receber as vantagens ilícitas que supostamente seriam repassadas aos agentes públicos mencionados”.
Ainda de acordo com os promotores, o esquema do qual Kennedy Lino fez parte, alterou 179 resultados de provas práticas cujos alunos haviam sido reprovados. Como em alguns casos o mesmo candidato tentou tirar a habilitação para categorias diferentes, o MPES concluiu que 161 pessoas foram beneficiadas e tiveram seus resultados alterados.
E as infrações cometidas por Kennedy não ficam apenas nas questões de trânsito. O engenheiro aparece como réu na ação penal número 00058408220178080038. Ele é acusado de fraudar a Espírito Santo Centrais Elétricas Sociedade Anônima (EDP): o popular gato de energia.
De acordo com a ação penal, Kennedy Lino e outro amigo foram contratados para fraudar o medido de energia de uma propriedade. Segundo as investigações, Kennedy “tinha a responsabilidade de executar o serviço com software para alteração de parâmetro nos medidores dos clientes”. Ainda segundo a investigação, Lino e seu comparsa cobravam R$ 3.400,00 pelo “serviço”, que foi prestado em diversas propriedades do interior do Estado. A ação corre na comarca de Nova Venécia.
O juiz do caso condenou Kennedy Lino há um ano e três meses de prisão pelo esquema de furto de energia. Por enquanto, o engenheiro responde as ações em liberdade.
Enquanto isso, Kennedy Lino segue acusando os colegas – que diferente dele não possuem nenhuma condenação criminal - e de olho no controle do rico caixa da Mútua, responsável por administrar o dinheiro de toda a engenharia capixaba.
